segunda-feira, 27 de maio de 2019

Jack Ma sugere 'filhos e sexo' a funcionários do Alibaba

Conhecido por ser exigente no trabalho, Jack Ma, fundador da Alibaba e o homem mais rico da China, sugeriu a seus funcionários que façam muito sexo e tenham filhos, uma forma de medir resultados no casamento. A declaração foi feita na última sexta-feira, quando Ma compareceu a um evento organizado para comemorar o casamento coletivo de parte de seus funcionários. Na ocasião, perante 102 casais, o bilionário disse que: "No trabalho, nós enfatizamos o 996. Na vida, devemos seguir a ideia do 669".
Na China, o modelo "996" significa trabalhar das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana. Sobre o 669, Ma explicou que o número significaria a prática de sexo por seis dias na semana, seis repetições em cada dia e duração como chave da atividade. Em chinês a palavra "longa" tem pronúncia semelhante a "nove", o que sugere que o magnata pensa que seus funcionários devem investir tempo na atividade.
Segundo publicação do Daily Mail, ele acrescentou: "O primeiro indicador de sucesso do casamento é ter resultados. Tem que ter produtos. O que é o produto? Ter filhos."
Polêmico. O executivo tem sido alvo de ataques depois de se declarar favorável a jornadas extras de trabalho. Entre as afirmações, Ma disse que muitas horas de trabalho é uma benção para jovens por ser a melhor forma deles alcançarem o sucesso.
A declaração foi criticada por trabalhadores do setor de tecnologia, que têm debatido sobre o estresse causado pelo modelo exaustivo de trabalho do setor. Os manifestantes também já teriam escolhido a Alibaba como uma das piores empresas para se trabalhar na China.
Esta é a íntegra de uma notícia publicada na edição de 15 de maio de 2019 do jornal O Estado se S. Paulo.
Torne-se bilionário e / ou famoso - não necessariamente nessa ordem - e ganhe, automaticamente, o "direito" de usar a mídia para sair mundo afora sugerindo, a quem não se tornou, todo e qualquer disparate que lhe vier à cabeça. Eis a primeira "lição" que enxergo na notícia apresentada nesta postagem.
"No trabalho, nós enfatizamos o 996. Na vida, devemos seguir a ideia do 669", diz o bilionário.
Na China, o modelo "996" significa trabalhar das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana. Sobre o 669, Ma explicou que o número significaria a prática de sexo por seis dias na semana, seis repetições em cada dia e duração como chave da atividade. Em chinês a palavra "longa" tem pronúncia semelhante a "nove", o que sugere que o magnata pensa que seus funcionários devem investir tempo na atividade.
Considerando que o que é dito pelo bilionário refere-se ao uso do tempo que temos ao nosso dispor e que, sendo o trabalho apenas uma das partes da vida, o estabelecimento da quantidade de tempo a ele destinado deve considerar a necessidade de tempo para outras partes, entre elas a reparação de energia feita através do sono e da alimentação sem a qual fica-se incapacitado para o próprio trabalho, enxergo nas palavras do bilionário um verdadeiro disparate, e eu explico.
Trabalhando 12 horas por dia, seis dias por semana, tendo que dormir e alimentar-se para ser capaz de voltar a enfrentar 12 doze horas de trabalho no dia seguinte, quem encontrará tempo para praticar seis repetições de sexo por dia, com longa duração, seis dias por semana?
"Segundo publicação do Daily Mail, Jack Ma acrescentou: 'O primeiro indicador de sucesso do casamento é ter resultados. Tem que ter produtos. O que é o produto? Ter filhos'."
Em relação ao "acréscimo" feito por Jack Ma, segundo o Daily Mail, eis o que encontrei em uma reportagem intitulada "15 coisas que você não sabia sobre Jack Ma, do Alibaba", publicada em https://exame.abril.com.br/negocios/15-coisas-que-voce-nao-sabia-sobre-jack-ma-do-alibaba/.
"15. Criação dos filhos
Em entrevistas, Ma afirmou que teve muito pouco contato com seu filho, nascido em 1992, quando ele era pequeno. A criança ficava na creche cinco dias por semana e Jack só o via aos fins de semana. A ausência do pai levou o filho a ficar viciado em jogos de computador, segundo o site Next Shark. Por isso, Jack pediu a sua esposa para sair do Alibaba e se tornar mãe em tempo integral, uma decisão a qual ela não estava muito disposta."
Diante do que é dito no parágrafo acima, será que pode-se considerar que Jack Ma obteve sucesso no casamento?
Diante de tudo o que é dito acima, será que faz sentido "pessoas comuns" adotarem sugestões de bilionários, de famosos e de "celebridades"?

sexta-feira, 29 de março de 2019

Cada um por si

Inspirada no conceito implantado há tempos, tanto nos EUA como na Europa – as lavanderias selfservice -, a Laundromat decidiu apostar na ampliação da sua rede brasileira. Só neste primeiro trimestre abrirá cinco novas unidades onde os clientes darão conta do seu próprio serviço, sem ajuda. A mudança, explica o diretor Nicolas Lopez, mostra-se rentável tanto para o cliente como para o investidor. "As pesquisas que fazemos sempre apontam uma preferência do cliente por fazer tudo sozinho, sem a necessidade de passar pelo atendimento – que, às vezes, pode ser demorado."
Esta é a íntegra de uma matéria jornalística publicada na edição de 17 de março de 2019 do jornal O Estado de S. Paulo, em uma página intitulada Direto da Fonte - Sonia Racy.
Esta é uma daquelas matérias jornalísticas em que, independentemente de seu conteúdo, a simples leitura de seu título desperta minha vontade de dizer alguma coisa.
"Inspirada no conceito implantado há tempos, tanto nos EUA como na Europa – as lavanderias selfservice -, a Laundromat decidiu apostar na ampliação da sua rede brasileira.", eis como começa a matéria jornalística que provocou esta postagem.
Inspirado no conceito implantado há tempos, nesta insana sociedade (sic) - o comportamento "cada um por si", decidi apostar na publicação desta postagem para mostrar o equívoco da adoção de tal comportamento. Afinal, será que faz sentido falar em sociedade vivendo-se segundo o comportamento "cada um por si"?
"A mudança mostra-se rentável tanto para o cliente como para o investidor", explica o diretor Nicolas Lopez. "As pesquisas que fazemos sempre apontam uma preferência do cliente por fazer tudo sozinho, sem a necessidade de passar pelo atendimento – que, às vezes, pode ser demorado.", acrescenta ele.
Sim, se é rentável tanto para o cliente como para o investidor, que se dane (para não usar uma palavra mais contundente) o atendente, não é mesmo? Se é bom para mim que me importa que seja ruim para alguém. "Os incomodados que se mudem.", diz um antigo e estúpido ditado. "Os prejudicados que se virem.", diz um ditado que, embora eu nunca tenha escutado, a todo instante vejo praticado.
"O que não convém ao enxame não convém tampouco à abelha", eis uma afirmação atribuída ao imperador Marco Aurélio (121 – 180), o imperador filósofo. Por que cito-a aqui? Porque interpreto-a como um crítica ao comportamento "cada um por si". Porque se Marco Aurélio aparecesse de súbito entre os seres humanos do presente ele ficaria consternado, como explica Roberto Assagioli (1888 – 1974), psiquiatra italiano fundador do movimento psicológico conhecido como Psicossíntese, em seu livro O Ato da Vontade, publicado em 1973.
"Se um homem de uma civilização anterior à nossa – um grego da Antiguidade, digamos, ou um romano – aparecesse de súbito entre os seres humanos do presente, suas primeiras impressões o levariam a considerá-los uma raça de mágicos, de semideuses. Mas fosse um Platão ou um Marco Aurélio e se recusasse a ficar deslumbrado ante as maravilhas materiais criadas pela tecnologia avançada e examinasse a condição humana com mais cuidado, suas primeiras impressões dariam lugar a uma grande consternação. Verificaria que esse pretenso semideus que controla grandes forças elétricas com o mover de um dedo e inunda o ar de sons e imagens para divertimento de milhões de pessoas – é incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos."
E "incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos, esse pretenso semideus" que mil oitocentos e tantos anos depois ainda não conseguiu assimilar algo ensinado por Marco Aurélio ("O que não convém ao enxame não convém tampouco à abelha"), segundo o diretor da lavanderia, "prefere fazer tudo sozinho, sem a necessidade de passar pelo atendimento – que, às vezes, pode ser demorado.". É estranha, muito estranha a noção que tem de demora esse pretenso semideus!
"Cada um por si", eis o título da matéria jornalística que provocou esta postagem! "Cada um por si", eis o comportamento que enxergo como provocador da situação descrita por Alberto Pasqualini (1901 – 1960), advogado, professor, sociólogo e senador, em uma afirmação feita em fevereiro de 1945. "O analfabetismo, a falta de ocupação, a vida difícil e a miséria poderão criar uma grave situação de insegurança que evoluiria para uma criminalidade irreprimível.", afirma Pasqualini.
Será que a criminalidade irreprimível prevista por Alberto Pasqualini, há 74 anos, já é realidade nos dias de hoje? Será que enxergo corretamente? Será que o comportamento "cada um por si" pode ser considerado gerador de condições propícias ao desenvolvimento dos fatores apontados por Pasqualini como "possíveis criadores de uma grave situação de insegurança que evoluiria para uma criminalidade irreprimível"? Será que o próximo parágrafo responde esta última indagação?
"Em cada ladrãozinho prepotente que inferniza nossas vidas está um pouco de nossa indiferença, que nada fez pelas crianças que eles um dia foram...", diz Padre Zezinho scj em seu livro Pensando como Jesus pensou. Será que é difícil perceber que indiferença em relação aos outros é um autêntico exemplo do comportamento "cada um por si"?
Será que a teimosia em viver em um meio ocupado por uma quantidade cada vez maior de pessoas como se nele estivesse sozinho, ou seja, segundo o comportamento "cada um por si", pode ser vista como uma validação daquela famosa citação de Albert Einstein: "Existem apenas duas coisas infinitas - o universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao universo." Será que "cada um por si" seria capaz de responder a indagação anterior ou será que o que é dito nesta postagem pode ajudar a respondê-la?

sábado, 2 de março de 2019

BB ganharia com privatização, diz presidente do banco

Rubem Novaes admite que instituição teria resultado melhor, mas que país não está preparado. Lucro líquido sobe 16,8% em 2018
O presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, disse ontem que acredita que a instituição teria um resultado melhor caso fosse privatizada. No entanto, afirmou que isso não está no plano do governo e que os ativos a serem vendidos são aqueles que não dependem da rede bancária para obtenção de resultados.
- O BB ganharia com a privatização, mas não é essa a política do governo. Espero que um dia se chegue a essa conclusão, mas o país ainda não está preparado para isso. Essa é uma posição pessoal – disse Novaes, durante apresentação dos resultados do banco à imprensa.
O BB é o maior banco do país, mas a sua rentabilidade é inferior à dos concorrentes privados. O retorno sobre o patrimônio líquido, que mede como um banco remunera o capital de seus acionistas, ficou em 13,9% em 2018, ante a faixa de 18% a 20% dos concorrentes privados. No ano passado, o BB registrou lucro líquido de R$ 12,862 bilhões, o que representa um aumento de 16,8% na comparação com o ano anterior, quando o ganho foi de R$ 11 bilhões.
Na visão de Novaes, a instituição seria muito mais eficiente caso fosse privada, mas, como é pública, sempre há alguns "entraves". Embora veja como melhor caminho para o BB a privatização, o executivo afirmou que não há pressa para fazer desinvestimentos.
Estes são alguns trechos de uma reportagem de Ana Paula Ribeiro publicada na edição de 15 de fevereiro de 2019 do jornal O Globo.
BB ganharia com privatização, diz presidente do banco, eis o título da reportagem de Ana Paula Ribeiro. Reportagem na qual são atribuídas ao tal presidente as seguintes palavras: "- O BB ganharia com a privatização, mas não é essa a política do governo. Espero que um dia se chegue a essa conclusão, mas o país ainda não está preparado para isso. Essa é uma posição pessoal".
Palavras que me fazem lembrar uma afirmação de Nuccio Ordine, professor de literatura italiana da Universidade da Calábria, feita em um artigo intitulado Democracia líquida, publicado na edição de 16.02.2014 do jornal O Estado de S. Paulo: "Reduzir o valor da vida ao dinheiro mata toda possibilidade de idealizar um mundo melhor.".
Considerando a afirmação de Nuccio Ordine e as palavras do presidente do BB, redijo a seguinte paráfrase: "- O mundo ganharia com a conscientização, mas não é essa a vontade daqueles que dele se julgam donos. Espero que um dia se chegue a essa conclusão, mas o mundo ainda não está preparado para isso. Essa é uma posição pessoal". Uma posição pessoal que espero que um dia seja uma posição geral.
Conscientização que faria tal presidente perceber que, instituições públicas e instituições privadas jamais deveriam concorrer, pois são instituições com finalidades completamente diferentes. Enquanto as públicas têm por finalidade fomentar o desenvolvimento social, as privadas têm por finalidade proporcionar aos seus donos e acionistas um lucro financeiro cada vez maior. Um lucro financeiro que leva a afirmações como as reproduzidas no próximo parágrafo, e parafraseadas a seguir.
- O BB ganharia com a privatização, mas não é essa a política do governo – disse Novaes, durante apresentação dos resultados do banco à imprensa. (...) Na visão de Novaes, a instituição seria muito mais eficiente caso fosse privada, mas, como é pública, sempre há alguns "entraves".
- O BB ganharia com a privatização, mas não é essa a finalidade para a qual ele foi criado – digo eu, durante esta opinião sobre o que é dito pelo presidente do BB na reportagem que provocou esta postagem. Na minha visão, a instituição seria muito mais decente caso, sendo pública, buscasse a eficácia (fazer as coisas certas), e não a eficiência (fazer as coisas da maneira certa), mas, como é pública, sempre há alguns "entraves". "Entraves" criados exatamente por aqueles que defendendo interesses escusos pretendem tornar uma instituição cuja finalidade é fomentar o desenvolvimento social em uma instituição cuja finalidade é proporcionar aos seus donos e acionistas um lucro financeiro cada vez maior. Fazer da maneira certa coisas que não deveriam ser feitas é algo que não deveria ser louvado. Dito isto, voltemos à conscientização.
Conscientização que faria tal presidente perceber que, assim como jamais se viu uma instituição privada tornar-se pública, jamais se deveria ver uma instituição pública tornar-se privada, pois como já foi dito alguns parágrafos acima esses dois tipos de instituição têm finalidades completamente diferentes.
Conscientização que possibilita perceber que, assim como em termos de finalidade as instituições dividem-se em públicas e privadas; em termos de mentalidade os indivíduos também podem ser divididos em públicos e privados. Sendo assim, para evitar o risco de entregar a uma raposa a administração de um galinheiro, a presidência de uma empresa jamais deveria ser entregue a alguém cuja mentalidade seja incompatível com a finalidade da empresa que irá presidir.
Será que é difícil enxergar na reportagem reproduzida nesta postagem um caso típico de colocação de alguém com mentalidade privada para presidir uma instituição pública? Será que é difícil enxergar com que intenção é feita uma colocação dessas? Será que faz sentido alguém, alegando seja lá o que, querer vender algo que pertence a sociedade? Será que já lhes passou pela cabeça a ideia de que vender algo que não é seu e receber comissão pela venda é coisa de corretores, não de governantes, de presidentes de instituições e assemelhados?
Privatização total e irrestrita, ou seja, substituição de todas as instituições de interesse público por instituições de interesse privado, eis o que os corretores que ocupam o governo deste país apontam como única solução para os males que o assolam. E que a imensa maioria da população aceita passivamente como verdade.
Será que algum dia a imensa maioria da população deste país conseguirá perceber que quando os supostos governantes falavam em privatização eles não se referiam à instalação de privadas onde toda a população poderia jogar a merda, e sim a colocação de mais gente na merda?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Apenas 11% acham que Bolsonaro beneficiará mais os trabalhadores

Segundo Datafolha, brasileiros esperam que políticos e indústria sejam mais privilegiados em governo Bolsonaro
A classe trabalhadora não será um dos segmentos mais beneficiados durante o governo Jair Bolsonaro, na visão da maior parte dos brasileiros. Levantamento do Datafolha mostra que apenas 11% da população acha que eles serão os mais privilegiados nos próximos anos.
(...) O levantamento foi realizado nos dias 18 e 19 de dezembro em 130 municípios do país.
As promessas de campanha de Bolsonaro incluíam medidas impopulares entre os trabalhadores, como o aprofundamento da reforma trabalhista – com a chamada "carteira verde e amarela", que teria menos direitos.
Estes são alguns trechos de uma reportagem publicada na edição de 26 de janeiro de 2019 do jornal Folha de S.Paulo. Reportagem que me fez lembrar outra publicada 11 dias antes no mesmo jornal e da qual alguns trechos são apresentados a seguir.
Agenda prioritária de Jair Bolsonaro gera interesse em poucos brasileiros
Segundo dados do Datafolha, parcela expressiva da população discorda dos temas centrais de sua plataforma
Uma primeira leitura dos resultados da pesquisa nacional do Datafolha divulgada ao longo do último mês sugere descolamento entre a agenda do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL) e a opinião pública brasileira. Apesar de o presidente ter conquistado a maioria dos votos e manter expectativa positiva sobre seu governo, o posicionamento dos eleitores quanto às teses defendidas em pronunciamentos de sua equipe não alcança apoio equivalente.
(...) Pontos-chave da pauta Bolsonarista como Escola sem Partido, posse de armas e aproximação com o governo dos EUA são reprovados por parcela expressiva da população, com percentuais próximos a 70%. Também se mostram com altos índices de rejeição a redução de terras indígenas, medidas contra o meio ambiente, privatização de estatais e perda de direitos trabalhistas.
Com esses dados, fica a pergunta: como Bolsonaro foi eleito com tamanho desencontro entre representante e representados?
Estes são alguns trechos de uma reportagem publicada na edição de 15 de janeiro de 2019 do jornal Folha de S.Paulo, assinada por Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha e Alessandro Janoni, diretor de Pesquisas.
Após 45 dias sem novas postagens, este blog – Lendo e opinando - volta à ativa de forma inusitada: apresentando duas reportagens em uma mesma postagem, e saindo de sua proposta inicial – ler e opinar, trocando a opinião do mantenedor do blog por uma simples indagação. Qual é a indagação? A mesma feita por Mauro Paulino e Alessandro Janoni em sua reportagem: Como Bolsonaro foi eleito com tamanho desencontro entre representante e representados?
Diante da perplexidade em mim provocada por tais reportagens, a solução foi deixar de lado o - Lendo e opinando - e, momentaneamente, praticar o - Lendo e indagando.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Solidão que nada

Um dispositivo criado por estudantes franceses da
Universidade Paris-Saclay e Sorbonne é capaz de fazer um carinho no usuário enquanto ele manipula um smartphone. Apesar do espírito lúdico, o MobiLimb, como é chamado, explora conceito do aprimoramento humano: estruturas robóticas que funcionam como uma extensão do corpo humano, uma aposta no futuro da indústria.
Esta é a íntegra de uma notícia publicada na edição de 19 de outubro de 2018 do jornal Folha de S.Paulo.
"Um dispositivo capaz de fazer um carinho no usuário enquanto ele manipula um smartphone.", diz a notícia reproduzida acima em uma frase que mutatis mutandis deixo assim:
"Um dispositivo capaz de manipular psicologicamente o usuário enquanto ele manipula fisicamente um smartphone.".
Manipulação! Eis um grande mal ao qual a imensa maioria dos integrantes da autodenominada espécie inteligente do universo sempre esteve sujeita, sobre o qual já foi alertada e para o qual parece-me cada vez menos preparada para enfrentar, como demonstra o estupendo êxito obtido por essa coisa denominada fake news.
Publicado há 28 anos, há um livro de Wilson Bryan Key (1925 – 2008), um professor e escritor americano autor de vários livros sobre publicidade e mensagens subliminares, intitulado A Era da Manipulação. Um livro que revela as formas pelas quais forças poderosas seduzem e manipulam multidões e discute as sofisticadas estratégias publicitárias e de informação usadas para encantar o público, operando diretamente sobre seus medos, necessidades e desejos inconscientes.
"Apesar do espírito lúdico, o MobiLimb, como é chamado, explora o conceito do aprimoramento humano: estruturas robóticas que funcionam como uma extensão do corpo humano, uma aposta no futuro da indústria.", diz a notícia reproduzida acima.
"Estruturas robóticas que funcionam como uma extensão do corpo humano explorando o conceito do aprimoramento humano, uma aposta no futuro da indústria."! Que coisa estranha, hein!
"Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual; somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.", disse Teilhard de Chardin (1881 – 1955), teólogo, filósofo e paleontólogo francês, em uma afirmação que considero a mais significativa que já vi para explicar o que somos. Uma afirmação que leva-me à seguinte indagação: Se somos seres espirituais, será que faz sentido buscar na robótica o nosso aprimoramento? Não, o que depende da robótica não é o aprimoramento humano, e sim "a aposta no futuro da indústria"; de uma indústria cada vez mais desumana.
"A civilização não tem como finalidade o progresso das máquinas; mas, sim o do homem.", disse Alexis Carrel (1873 – 1944), cirurgião, fisiologista, biólogo e sociólogo francês, em uma afirmação que considero a mais significativa que já vi para explicar o porquê da tal da espécie inteligente do universo ainda não ter conseguido atingir um estágio evolutivo que faça jus ao termo civilização. Uma espécie que, fascinada pela evolução tecnológica e negligente em relação à evolução do homem, facilmente adere à criação de dispositivos como o citado na notícia acima. Um dispositivo que, alegando ser capaz de resolver uma carência psicológica por meio de um recurso tecnológico, poderá cair como uma luva para os integrantes do imenso contingente formado pelos adeptos da expressão "Me engana que eu gosto".
Solidão que nada, diz o título da notícia. Não, não é contra a solidão que enxergo a utilidade do dispositivo criado para fazer um carinho no usuário enquanto ele o manipula; e sim a favor de uma forma de manipulação que, valendo-se da errônea crença de que a tecnologia é capaz de solucionar todo e qualquer problema, pretende vender a incautos a equivocada ideia de que problemas psicológicos podem ser solucionados por meios tecnológicos.