segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A praga do longo expediente

Excesso de trabalho mata. E, quando não mata, é improdutivo
Sabe o que significa "karoshi"? É o termo em japonês para "morte por excesso de trabalho", um mal que assola o Japão desde meados do século passado e parecia ter arrefecido, até ressurgirem notícias trágicas como a da publicitária de 24 anos que se matou após trabalhar até 105 horas extras, ou do enfarte da jornalista da rede NHK, de 31 anos, que só folgava dois dias por mês. Exaltar longos expedientes, supostamente uma forma de se colocar acima dos colegas em produtividade, na verdade, não passa de uma jogada improdutiva. Estudo da Universidade de Stanford constatou: expedientes semanais que excedam entre 40 e 49 horas acabam se tornando negativos, pois, quanto mais extensos, menos produtivos se tornam. E, quando uma pessoa trabalha acima de 53 horas semanais, os resultados obtidos acabam rendendo metade do que obteriam se respeitassem um limite aceitável.
Isso abala principalmente o mito cultuado no setor de startups, segundo o qual quanto mais horas se dedicam ao trabalho, mais resultados são obtidos. Na verdade, é o oposto: o estudo descobriu que uma das razões pelas quais startups fracassam é justamente cultuar longas jornadas sem saber distinguir entre o importante e o trivial durante o expediente. Isso leva equipes a cometerem erros estúpidos, que uma pessoa descansada facilmente evitaria. O estudo revelou também que, após longas jornadas de trabalho, programadores de computador, por exemplo, tendem a formular códigos repletos de erros ou criar mais problemas ao tentar depurar um software.
Esta é a íntegra de uma reportagem publicada na edição de novembro de 2017 da revista Época Negócios, em uma seção intitulada INTELIGÊNCIA.
"Estudo da Universidade de Stanford constatou: expedientes semanais que excedam entre 40 e 49 horas acabam se tornando negativos, pois, quanto mais extensos, menos produtivos se tornam. (...) Isso leva equipes a cometerem erros estúpidos, que uma pessoa descansada facilmente evitaria. O estudo revelou também que, após longas jornadas de trabalho, programadores de computador, por exemplo, tendem a formular códigos repletos de erros ou criar mais problemas ao tentar depurar um software."
É impressionante a quantidade de novidades antigas que nos são apresentadas nos dias de hoje! É impressionante a quantidade de estudos e de pesquisas que nos são apresentados como descobridores de coisas que um indivíduo - que conscientemente observe o que faz e atente para as consequências do que faz - já percebera com relativa facilidade.
Será que para saber que "após longas jornadas de trabalho, programadores de computador, por exemplo, tendem a formular códigos repletos de erros ou criar mais problemas ao tentar depurar um software.", é necessário que um estudo de uma universidade lhe diga isso ou o simples fato de ser um profissional consciente e atento às consequências do que faz é suficiente para que ele próprio descubra tal coisa? Comecei a trabalhar com softwares em 1974 e, mesmo sem o auxílio de qualquer um desses estudos, facilmente percebi a conclusão a que chegou o referido estudo.
"Na década de 1950, uma pesquisa feita num instituto de tecnologia do Estado de Illinois mostrou que os cientistas mais produtivos, os que publicavam mais artigos, passavam uma média de 20 horas por semana no local de trabalho. Os que passavam 35 horas publicavam menos. Os piores, em matéria de produtividade? Os que trabalhavam 60 horas por semana."
Citado como tendo sido extraído do livro Rest, Why You Get More Done When You Work Less (Descanso, Por Que Você Faz Mais Quando Trabalha Menos), de Alex Soojung-Kim Pang, um veterano do Vale do Silício e fundador da Restful Company, o parágrafo acima foi copiado de um artigo de Lúcia Guimarães intitulado Vadiagem produtiva publicado na edição de 3 de abril de 2017 do jornal O Estado de S. Paulo, e espalhado pelo blog Espalhando ideias em 4 de julho de 2017.
Ou seja, mostrar que, ao contrário do que a maioria pensa (sic), o aumento da produtividade não é diretamente proporcional à quantidade de horas trabalhadas, como revela o recente estudo da Universidade de Stanford, é algo que já era feito no século passado; no milênio passado, não é mesmo? É realmente impressionante a quantidade de novidades antigas que nos são apresentadas nos dias de hoje!
A quem quiser ler mais sobre temas como trabalhar demais, produtividade, eficiência e suas contrapartidas, segue uma relação de postagens publicadas no blog Espalhando ideias: Não é dedicação, é ineficiência (20.03.2012), Não é preguiça, é eficiência (16.03.2012), Contrate preguiçosos! (23.03.2012), Trabalhe menos (18.03.2013), Anfetamina espiritual (30 de março de 2016), Vadiagem produtiva (04.07.2017).

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Filhos da princesa Diana dizem se arrepender da última conversa

William e Harry falam que ligação antes da morte da mãe, em 1997, foi muito rápida
Os príncipes britânicos William e Harry falaram sobre o arrependimento em relação à última conversa que tiveram com a mãe, a princesa Diana, antes que ela morresse, dizendo que foi "desesperadoramente apressada".
A declaração foi feita para o documentário "Diana, Nossa Mãe: Sua Vida e Legado", do canal britânico ITV, que estreou nesta segunda-feira (24) nos EUA. O filme faz parte da lembrança dos 20 anos do acidente que levou à morte de Lady Di em Paris. Naquele 31 de agosto de 1997, William, na época com 15 anos, e Harry, com 12, passavam uns dias no Castelo de Balmoral, a residência da rainha Elizabeth 2ª na Escócia.
"Harry e eu estávamos com uma pressa desesperada para dizer tchau, você sabe, 'te vejo mais tarde'. Se eu soubesse o que iria acontecer eu não teria sido tão blasé sobre isso e todo o resto", disse o príncipe William.
Harry afirmou: "Ela estava ligando de Paris, eu não consigo lembrar necessariamente o que disse, mas tudo o que eu lembro é que eu provavelmente vou me arrepender pelo resto da vida sobre quão rápida foi aquela ligação."
Os príncipes se lembram do senso de humor de sua mãe, com o príncipe Harry descrevendo-a como "uma das mães mais marotas". "Nossa mãe era uma piadista, quando todo mundo me diz 'se era divertida, nos dê um exemplo', tudo o que escuto é sua risada na minha cabeça", acrescentou.
Decididos a mantê-la viva na memória, começaram a chamá-la de "avó Diana" para os filhos de William – os príncipes George, 4, e Charlotte, 2. "É importante que saibam quem era e que existiu", disse William. "Agora temos mais fotos em casa e falamos dela", explicou. William e Harry planejam arrecadar fundos para construir uma estátua da mãe, que será instalada no Palácio de Kensington, em Londres.
Estes são alguns trechos de uma reportagem publicada na edição de 25 de julho de 2017 do jornal O Folha de S.Paulo, com a indicação de ter sido obtida das agências de notícias.
"Os príncipes britânicos William e Harry falaram sobre o arrependimento em relação à última conversa que tiveram com a mãe, a princesa Diana, antes que ela morresse, dizendo que foi 'desesperadoramente apressada'". (...) "Harry afirmou: 'Ela estava ligando de Paris, eu não consigo lembrar necessariamente o que disse, mas tudo o que eu lembro é que eu provavelmente vou me arrepender pelo resto da vida sobre quão rápida foi aquela ligação.'"
Agir de forma "desesperadoramente apressada" e, paradoxalmente, produzir arrependimentos desesperadoramente demorados, pois, como diz o príncipe Harry, provavelmente perdurarão pelo resto da vida. Será que a frase anterior pode ser considerada uma descrição plausível para o modo de vida adotado pela imensa maioria dos integrantes desta questionável espécie inteligente do universo? O que vocês acham?
"William e Harry planejam arrecadar fundos para construir uma estátua da mãe, que será instalada no Palácio de Kensington, em Londres.", afirma a notícia selecionada para esta postagem.
Afirmação que leva-me a fazer as seguintes indagações. Será que alguém que ficou bastante conhecida por apoiar arrecadações de fundos a serem aplicados em instituições de caridade apoiaria a ideia de arrecadar fundos para construir uma estátua a ser instalada em um Palácio com o intuito de homenageá-la? Será que, vinte anos depois, os já não tão jovens príncipes, estão partindo para mais uma coisa da qual provavelmente também se arrependerão? O que vocês acham?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Para onde estão indo os megarricos?

Megarricos buscam refúgio na Nova Zelândia contra colapso capitalista
Temor de ricos é que ocorra revolta popular devido à desigualdade em alta; Trump é outro fator para interesse
As vistas são deslumbrantes: cervos selvagens circulam pela área e uma floresta oferece lenha suficiente para aquecer qualquer bilionário que se respeite mesmo no pior inverno nuclear.
A Lake Hawea Station, uma propriedade de 4.605 hectares na região central Otago, é uma das propriedades autossuficientes que vêm surgindo em número crescente na Nova Zelândia. Elas são tipicamente vendidas a compradores internacionais e, de acordo com alguns comentaristas, se tornaram a nova mania entre os megarricos do planeta que estejam em busca de proteção contra o futuro colapso do sistema capitalista.
"Cerca de 40% de nossos clientes são norte-americanos – eles querem privacidade, segurança e uma bela paisagem rural", disse o corretor Matt Finnigan. "Imóveis sustentáveis em geral oferecem fontes próprias de água e energia e capacidade de cultivar alimentos", ele diz. A chegada de imigrantes ricos ao país ganhou destaque na semana passada com a notícia de que Peter Thiel, cofundador do PayPal, estava entre os 92 candidatos a quem foi secretamente concedida a nacionalidade neozelandesa, contornando os trâmites regulares.
Pouco antes, um artigo publicado pela revista "New Yorker" identificou a Nova Zelândia como destino preferencial para os ricos que querem sobreviver caso a crescente desigualdade venha a provocar uma revolta popular. "Dizer que você está comprando uma casa na Nova Zelândia é uma daquelas coisas subentendidas", disse à revista Reid Hoffman, cofundadora do Linkedin.
"Dizer que você está comprando uma casa na Nova Zelândia é uma daquelas coisas subentendidas"
Reid Hoffman (cofundadora do Linkedin)
Além de Thiel, a lista de americanos ricos que têm imóveis na Nova Zelândia inclui o cineasta James Cameron, o guru dos fundos de hedge Julian Robertson. Diversos russos ricos também têm imóveis no país. O país de 4,3 milhões de habitantes está desfrutando de um boom de imigração e investimento estrangeiro. O governo do país aprovou a aquisição de 466 mil hectares de terras por estrangeiros em 2016, quase 60% mais do que no ano anterior A entrada líquida de imigrantes também atingiu o recorde de 70,6 mil pessoas no ano passado.
Há sinal de que o interesse dos norte-americanos pela Nova Zelândia continua alto. Na semana posterior à vitória de Donald Trump, o serviço de imigração da Nova Zelândia reportou que 13 mil cidadãos dos EUA haviam expressado interesse em trabalhar ou estudar no país – cerca de 17 vezes mais pedidos que em uma semana típica.
Mas muitos neozelandeses rejeitam a ideia de que os ricos estejam acorrendo ao país para se proteger contra desastres em seus países. "Com voos diretos, a proximidade do país com relação à costa oeste dos Estados Unidos o torna atraente para os norte-americanos", diz Justin Murray, fundador do Murray & Co., um banco de investimento neozelandês.
Esta é a íntegra de uma reportagem publicada na edição de 07 de fevereiro de 2017 do jornal O Folha de S.Paulo, com a indicação de ter sido publicada no Financial Times e com tradução atribuída a Paulo Migliaccio.
Após uma postagem intitulada "Para onde foi a classe média?", eis uma que intitulei "Para onde estão indo os megarricos?".
"Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem", eis a célebre súplica feita por um mestre que deixou esta dimensão há 1984 anos. Uma súplica bastante abrangente, mas onde não estão incluídos os protagonistas da reportagem acima, pois os megarricos sabem o que fazem. E justamente por saberem o que fazem, o que fazem eles agora? Acostumados a comprarem tudo e todos, eles partem para a compra de um lugar onde possam encontrar "proteção contra o futuro colapso do sistema capitalista" e onde possam "sobreviver caso a crescente desigualdade venha a provocar uma revolta popular". Enfim, um lugar onde possam fugir das consequências do que – sabendo o que fazem - eles fizeram até aqui. Vocês lembram um trecho de uma bela canção da Legião Urbana que diz "Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação"? Mutatis mutandis, cantado pelos megarricos ele fica assim: "Nós fugiremos desses monstros da nossa própria criação".
"A chegada de imigrantes ricos ao país ganhou destaque na semana passada com a notícia de que Peter Thiel, cofundador do PayPal, estava entre os 92 candidatos a quem foi secretamente concedida a nacionalidade neozelandesa, contornando os trâmites regulares.", diz a reportagem.
Interpretar a concessão secreta de alguma coisa, contornando os trâmites regulares, como prática de corrupção faz sentido para vocês?
"As vistas são deslumbrantes: cervos selvagens circulam pela área e uma floresta oferece lenha suficiente para aquecer qualquer bilionário que se respeite mesmo no pior inverno nuclear.", diz a reportagem.
Depois de destruírem tanta "deslumbrância" e exterminarem tantos animais selvagens em busca do lucro que os colocou na condição de megarricos, eles saem por aí comprando vistas deslumbrantes onde ainda circulem alguns espécimes que tenham conseguido sobreviver e onde ainda existe "uma floresta que oferece lenha suficiente para aquecer qualquer bilionário que se respeite mesmo no pior inverno nuclear". "Um bilionário que se respeite mesmo no pior inverno nuclear", e que nada mais respeite mesmo na melhor das demais estações. Sinistro, não.
Publicado em 2007 pela Editions du Seuil e em 2010 pela Editora Globo há um interessante livro de Hervé Kempf que na edição brasileira recebeu o seguinte título: Como os ricos destroem o planeta. Os vermelhitos não são meus, e sim da própria editora.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Para onde foi a classe média?

Economista do MIT defende que os EUA se tornaram uma nação só de ricos e pobres
A economia norte-americana, quem diria, com ares terceiro-mundistas. No lugar de uma classe média historicamente robusta, ganham cada vez mais espaço dois grupos separados por um abismo: ricos e pobres. E quem antes estava no meio perde seu poder de compra. É o que mostra Peter Temin, economista do MIT, em seu livro The Vanishing Middle Class: Prejudice and Power in a Dual Economy ("A classe média desaparecida: preconceito e poder em uma economia dupla", sem edição no Brasil). Para ele, os Estados Unidos são hoje uma sociedade fraturada, por diversos motivos: políticas públicas, avanço da tecnologia, declínio da sindicalização – e tudo isso intensificado por questões raciais, num país cujo presidente defende que os inimigos são as minorias étnicas e não os poderosos que fogem dos impostos. Mas não é um caminho sem volta. O remédio óbvio é o de sempre: mais investimento em educação em todos os níveis. As pessoas são o principal recurso do país, escreve Temin.
Esta é a íntegra de uma reportagem de Edson Caldas publicada na edição de agosto de 2017 da revista Época Negócios.
Para onde foi a classe média? Considerando o que defende o economista do MIT – "que os EUA se tornaram uma nação só de ricos e pobres" –, no meu entender, ela foi transferida para as duas classes remanescentes, segundo a seguinte proporção: uma parcela ínfima foi para a dos ricos e uma imensa parcela foi para a dos pobres.
Quanto à afirmação de Peter Temin de que "Não é um caminho sem volta. Que o remédio óbvio é o de sempre: mais investimento em educação em todos os níveis, pois as pessoas são o principal recurso do país.", a comparação com algo que li em um artigo de Mauro Santayana publicado na edição de 22 de junho de 2008 do Jornal do Brasil sob o título A guerra entre os ricos e os pobres é, no meu entender, bastante desanimadora.
"Entre as assustadoras denúncias de projetos do neoliberalismo e da globalização, para a exclusão, há a de um encontro ocorrido na Califórnia, nos anos 80, em que alguns economistas e sociólogos, americanos e europeus, sob o patrocínio dos banqueiros, concluíram que era necessário afastar do consumo 4/5 da população mundial, a fim de garantir o padrão de vida dos 20% restantes. Os demais deveriam ser marginalizados da comunidade planetária, até sua extinção, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra. Os fatos parecem confirmar esse monstruoso projeto, que a consciência ética (a cada dia mais escassa) abomina."
Nove anos após a publicação do artigo, no meu entender, "os fatos continuam parecendo confirmar esse monstruoso projeto" e em nada sugerem que "o remédio óbvio de sempre: mais investimento em educação em todos os níveis" citado por Temin será aplicado, pois, diferentemente do que ele acha, as pessoas não são o principal recurso do país. Até porque, em uma civilização (sic) que tem como uma de suas principais pretensões a substituição de pessoas por robôs, dizer que pessoas são o principal recurso de um país é algo que, para mim, não faz o menor sentido.
Considerando respondida a pergunta – Para onde foi a classe média? – faço aqui outra pergunta: Para onde irá a classe pobre? E para respondê-la, mais uma vez, recorro às palavras de Mauro Santayana.
Diante da "necessidade" de "afastar do consumo 4/5 da população mundial, a fim de garantir o padrão de vida dos 20% restantes", descobrir para onde irá a classe pobre é algo que, no meu entender, fica fácil se nas palavras de Santayana substituirmos a parte representada em percentual e representarmos tudo em forma de fração, e eu explico. Considerando que, em forma de fração, 20% significa um quinto, a resposta para a pergunta - Para onde irá a classe pobre? -, pode ser encontrada na leitura do próximo parágrafo.
Se, a fim de garantir o padrão de vida do quinto onde estão situados os ricos, torna-se necessário afastar do consumo os quatro quintos onde estão situados os pobres, como será a melhor forma de realizar tal afastamento? Enviando-os para algum lugar distante como sugere a opinião dos participantes do encontro citado por Mauro Santayana: "(...) deveriam ser marginalizados da comunidade planetária, até sua extinção, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra". Em outras palavras: a fim de garantir o padrão de vida de um quinto o jeito será enviar os outros quatro quintos para os quintos dos infernos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ficção científica faz 'alerta' sobre futuro distópico

Mais do que simplesmente uma discussão sobre as possibilidades que a ciência e a tecnologia oferecem, a ficção científica também pode servir para alertar sobre consequências catastróficas que elas podem causar.
É comum, por exemplo, ler histórias sobre como a inteligência artificial vai tornar os computadores tão inteligentes a ponto de eles se voltarem contra os humanos num futuro longínquo. Recentemente, a série britânica Black Mirror, exibida no Brasil pelo serviço de streaming Netflix, deixou muita gente de cabelo em pé ao contemplar, por exemplo, as possibilidades imersivas da realidade virtual ou a vida em uma sociedade movida pela aprovação – ou pelo 'curtir' – dos outros. A histeria foi tanta que até gerou um bordão, usado frequentemente ao se comentar novidades da tecnologia: "Meu, isso é muito Black Mirror!".
"Essa é uma das principais diferenças da ficção científica e da fantasia: normalmente, a primeira nos mostra coisas que a gente não quer que aconteça", diz Walda Roseman, presidente da Fundação Arthur C. Clarke, dedicada ao autor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço e O Fim da Infância. "Clarke dizia que, ao imaginarmos algo assim, talvez já tenhamos aberto a caixa de Pandora.".
Para a maioria dos entrevistados para esta reportagem, uma das principais funções da ficção científica- se é que a arte precisa de uma função própria – é a de servir como alerta. "Muita gente se questiona se tanta tecnologia (e ficção) vai de fato melhorar a nossa vida", diz Fábio Gandour, cientista-chefe do laboratório da IBM no Brasil. "Precisamos acreditar que sim, porque faz parte da luta pela sobrevivência do ser humano. A realidade tem que ter mais elementos utópicos do que distópicos.".
Estes são alguns trechos de uma reportagem de Bruno Capelas publicada na edição de 02 de abril de 2017 do jornal O Estado de S. Paulo.
"Ficção científica faz 'alerta' sobre futuro distópico", diz o título da reportagem de Bruno Capelas, pois, "Mais do que simplesmente uma discussão sobre as possibilidades que a ciência e a tecnologia oferecem, a ficção científica também pode servir para alertar sobre consequências catastróficas que elas podem causar.". Aliás, se atentarmos para o significado de ficção científica encontrável em dicionários, creio que ela não só pode como também deve servir para tal alerta, conforme se pode deduzir a partir do seguinte significado encontrado em um deles. Ficção científica: ficção (coisa imaginária) cujo enredo se baseia, em geral, no desenvolvimento científico e nas situações decorrentes de tal desenvolvimento no tempo e no espaço.
Considerando que, em uma civilização (sic) onde existem o bem e o mal, o que decorre do desenvolvimento científico pode ser usado para o bem e / ou para o mal, creio que seja a partir dessa consideração que devemos escolher de que lado ficar em relação à afirmação feita pelo cientista-chefe no último parágrafo da reportagem e reproduzida a seguir.
"Muita gente se questiona se tanta tecnologia (e ficção) vai de fato melhorar a nossa vida", diz Fábio Gandour, cientista-chefe do laboratório da IBM no Brasil. "Precisamos acreditar que sim, porque faz parte da luta pela sobrevivência do ser humano. A realidade tem que ter mais elementos utópicos do que distópicos."
Discordo de Gandour quando diz: "Precisamos acreditar que tanta tecnologia (e ficção) vai de fato melhorar a nossa vida, porque faz parte da luta pela sobrevivência do ser humano. A realidade tem que ter mais elementos utópicos do que distópicos.". Por que discordo? Porque é por acreditar que tudo irá sempre melhorar a sua vida que a tal da espécie inteligente jamais se preparou adequadamente para enfrentar o que de mal pudesse vir a lhe acontecer. Por que é por acreditar em desenvolvedores de tecnologia que inúmeras vezes ela já se deu mal, para não usar aqui um linguajar mais contundente. Vocês já ouviram falar de um navio chamado Titanic? Pois é. Acreditar que ele jamais afundaria, conforme garantido por seus construtores, forneceu a primeira condição para a ocorrência do naufrágio. Será que acreditar em desenvolvedores de tecnologia quando afirmam que "tanta tecnologia vai de fato melhorar a nossa vida" será a primeira condição para a ocorrência de uma nova tragédia?
Entre Gandour e "Muita gente que se questiona se tanta tecnologia (e ficção) vai de fato melhorar a nossa vida", fico com essa "Muita gente". Não, ao contrário do que afirma Gandour, "A realidade não tem que ter mais elementos utópicos do que distópicos.", pois o que a realidade tem, e que terá sempre, são, os elementos criados pelos indivíduos que formam essa coisa denominada civilização (sic). Essa coisa que ao colocar o dinheiro e o lucro em primeiro lugar deixa as pessoas relegadas a sei lá que lugar.
Em uma civilização em que tudo está a serviço do dinheiro e do lucro, também a tecnologia está a serviço desses dois deuses – o dinheiro e o lucro. E em qualquer civilização em que o topo do Olimpo esteja ocupado por eles, "Mais do que simplesmente uma discussão sobre as possibilidades que a ciência e a tecnologia oferecem, a ficção científica também pode servir para alertar sobre consequências catastróficas que elas podem causar.". Sim, nesta civilização (sic) em que sobrevivemos, "ao se comentar novidades da tecnologia, 'Meu, isso é muito Black Mirror!'", é um bordão que continuará sendo usado frequentemente.".

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Tragédia em caçada: Caçador morre esmagado no Zimbábue

Um grande caçador foi esmagado até a morte por um elefante abatido por um membro do seu grupo. Theunis Botha, de 51 anos, morreu quando o animal caiu em cima dele, durante uma expedição de caça em Gwai, Zimbabwe, na sexta-feira.
Seu grupo se deparou com uma manada de elefantes em reprodução e disparou contra os animais, segundo relatos. Alarmados pelos intrusos, os elefantes correram contra os caçadores e um deles atingiu o Sr. Botha com seu tronco. Um membro do grupo de caça baleou o elefante, na esperança de que ele se afastasse de Botha, mas, em vez disso, o animal ferido (que morreu posteriormente) caiu bem em cima dele e o esmagou até a morte.
O Sr. Botha era um caçador muito conhecido, que liderava caçadas a leões e leopardos para sua empresa, Game Hounds Safaris. A empresa disse que ele era pioneiro no estilo de caça europeia chamado "monteiro", na qual matilhas de cães são utilizadas para conduzir javalis e veados até os caçadores. Ele já viajou muitas vezes para os Estados Unidos em busca de americanos ricos e interessados em participar de expedições e obter troféus de caça.
Ele deixou uma esposa, Carike, e cinco filhos, e todos eles vivem em Tzaneen, África do Sul. Carike, esposa do Sr. Botha deve viajar até Zimbabwe para buscar o corpo do marido. O Sr. Botha era amigo do caçador Scott Van Zyl, de 44 anos, que foi morto por crocodilos em Zimbabwe no mês passado.
Um porta-voz da Zimbabwe Parks & Wildlife Authority disse que o incidente aconteceu na Good Luck Farm, nas proximidades do Hwange National Park.
Esta é a íntegra de uma notícia publicada pelo Yahoo Notícias (https://br.yahoo.com/noticias/cacador-e-esmagado-ate-morte-por-queda-de-elefante-abatido-080954865.html) em 23 de maio de 2017.
"Tragédia em caçada: Caçador morre esmagado no Zimbábue"! Será este o melhor título para a notícia apresentada acima? No meu entender, não. Que título eu lhe daria? "Justiça em caçada: Caçador morre esmagado no Zimbábue"! E para justificar tal título, recorro à seguinte passagem da Doutrina Secreta.
"O Karma não cria nem planeja nada. É o homem quem planeja e cria causas, e a Lei Cármica ajusta o efeito. Tal ajustamento não é um ato, mas a harmonia universal, que tende sempre a reassumir sua posição original, tal qual um galho de árvore que, puxado violentamente para baixo, retorna com igual violência. Se o braço que o puxou se deslocar ou quebrar, quem teria sido o causador do sofrimento? O galho ou a nossa insensatez?"
Se "o grande caçador que buscava americanos ricos e interessados em participar de expedições e obter troféus de caça", foi esmagado até a morte por um elefante que, após ser baleado por um membro do grupo de caça por ele comandado, sobre ele desabou, "quem teria sido o causador do sofrimento"? O elefante ou a insensatez do caçador esmagado? Qual a melhor classificação para o ocorrido? Uma tragédia ou um raro caso de aplicação imediata de justiça? O que vocês acham?