quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ficção científica faz 'alerta' sobre futuro distópico

Mais do que simplesmente uma discussão sobre as possibilidades que a ciência e a tecnologia oferecem, a ficção científica também pode servir para alertar sobre consequências catastróficas que elas podem causar.
É comum, por exemplo, ler histórias sobre como a inteligência artificial vai tornar os computadores tão inteligentes a ponto de eles se voltarem contra os humanos num futuro longínquo. Recentemente, a série britânica Black Mirror, exibida no Brasil pelo serviço de streaming Netflix, deixou muita gente de cabelo em pé ao contemplar, por exemplo, as possibilidades imersivas da realidade virtual ou a vida em uma sociedade movida pela aprovação – ou pelo 'curtir' – dos outros. A histeria foi tanta que até gerou um bordão, usado frequentemente ao se comentar novidades da tecnologia: "Meu, isso é muito Black Mirror!".
"Essa é uma das principais diferenças da ficção científica e da fantasia: normalmente, a primeira nos mostra coisas que a gente não quer que aconteça", diz Walda Roseman, presidente da Fundação Arthur C. Clarke, dedicada ao autor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço e O Fim da Infância. "Clarke dizia que, ao imaginarmos algo assim, talvez já tenhamos aberto a caixa de Pandora.".
Para a maioria dos entrevistados para esta reportagem, uma das principais funções da ficção científica- se é que a arte precisa de uma função própria – é a de servir como alerta. "Muita gente se questiona se tanta tecnologia (e ficção) vai de fato melhorar a nossa vida", diz Fábio Gandour, cientista-chefe do laboratório da IBM no Brasil. "Precisamos acreditar que sim, porque faz parte da luta pela sobrevivência do ser humano. A realidade tem que ter mais elementos utópicos do que distópicos.".
Estes são alguns trechos de uma reportagem de Bruno Capelas publicada na edição de 02 de abril de 2017 do jornal O Estado de S. Paulo.
"Ficção científica faz 'alerta' sobre futuro distópico", diz o título da reportagem de Bruno Capelas, pois, "Mais do que simplesmente uma discussão sobre as possibilidades que a ciência e a tecnologia oferecem, a ficção científica também pode servir para alertar sobre consequências catastróficas que elas podem causar.". Aliás, se atentarmos para o significado de ficção científica encontrável em dicionários, creio que ela não só pode como também deve servir para tal alerta, conforme se pode deduzir a partir do seguinte significado encontrado em um deles. Ficção científica: ficção (coisa imaginária) cujo enredo se baseia, em geral, no desenvolvimento científico e nas situações decorrentes de tal desenvolvimento no tempo e no espaço.
Considerando que, em uma civilização (sic) onde existem o bem e o mal, o que decorre do desenvolvimento científico pode ser usado para o bem e / ou para o mal, creio que seja a partir dessa consideração que devemos escolher de que lado ficar em relação à afirmação feita pelo cientista-chefe no último parágrafo da reportagem e reproduzida a seguir.
"Muita gente se questiona se tanta tecnologia (e ficção) vai de fato melhorar a nossa vida", diz Fábio Gandour, cientista-chefe do laboratório da IBM no Brasil. "Precisamos acreditar que sim, porque faz parte da luta pela sobrevivência do ser humano. A realidade tem que ter mais elementos utópicos do que distópicos."
Discordo de Gandour quando diz: "Precisamos acreditar que tanta tecnologia (e ficção) vai de fato melhorar a nossa vida, porque faz parte da luta pela sobrevivência do ser humano. A realidade tem que ter mais elementos utópicos do que distópicos.". Por que discordo? Porque é por acreditar que tudo irá sempre melhorar a sua vida que a tal da espécie inteligente jamais se preparou adequadamente para enfrentar o que de mal pudesse vir a lhe acontecer. Por que é por acreditar em desenvolvedores de tecnologia que inúmeras vezes ela já se deu mal, para não usar aqui um linguajar mais contundente. Vocês já ouviram falar de um navio chamado Titanic? Pois é. Acreditar que ele jamais afundaria, conforme garantido por seus construtores, forneceu a primeira condição para a ocorrência do naufrágio. Será que acreditar em desenvolvedores de tecnologia quando afirmam que "tanta tecnologia vai de fato melhorar a nossa vida" será a primeira condição para a ocorrência de uma nova tragédia?
Entre Gandour e "Muita gente que se questiona se tanta tecnologia (e ficção) vai de fato melhorar a nossa vida", fico com essa "Muita gente". Não, ao contrário do que afirma Gandour, "A realidade não tem que ter mais elementos utópicos do que distópicos.", pois o que a realidade tem, e que terá sempre, são, os elementos criados pelos indivíduos que formam essa coisa denominada civilização (sic). Essa coisa que ao colocar o dinheiro e o lucro em primeiro lugar deixa as pessoas relegadas a sei lá que lugar.
Em uma civilização em que tudo está a serviço do dinheiro e do lucro, também a tecnologia está a serviço desses dois deuses – o dinheiro e o lucro. E em qualquer civilização em que o topo do Olimpo esteja ocupado por eles, "Mais do que simplesmente uma discussão sobre as possibilidades que a ciência e a tecnologia oferecem, a ficção científica também pode servir para alertar sobre consequências catastróficas que elas podem causar.". Sim, nesta civilização (sic) em que sobrevivemos, "ao se comentar novidades da tecnologia, 'Meu, isso é muito Black Mirror!'", é um bordão que continuará sendo usado frequentemente.".

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Tragédia em caçada: Caçador morre esmagado no Zimbábue

Um grande caçador foi esmagado até a morte por um elefante abatido por um membro do seu grupo. Theunis Botha, de 51 anos, morreu quando o animal caiu em cima dele, durante uma expedição de caça em Gwai, Zimbabwe, na sexta-feira.
Seu grupo se deparou com uma manada de elefantes em reprodução e disparou contra os animais, segundo relatos. Alarmados pelos intrusos, os elefantes correram contra os caçadores e um deles atingiu o Sr. Botha com seu tronco. Um membro do grupo de caça baleou o elefante, na esperança de que ele se afastasse de Botha, mas, em vez disso, o animal ferido (que morreu posteriormente) caiu bem em cima dele e o esmagou até a morte.
O Sr. Botha era um caçador muito conhecido, que liderava caçadas a leões e leopardos para sua empresa, Game Hounds Safaris. A empresa disse que ele era pioneiro no estilo de caça europeia chamado "monteiro", na qual matilhas de cães são utilizadas para conduzir javalis e veados até os caçadores. Ele já viajou muitas vezes para os Estados Unidos em busca de americanos ricos e interessados em participar de expedições e obter troféus de caça.
Ele deixou uma esposa, Carike, e cinco filhos, e todos eles vivem em Tzaneen, África do Sul. Carike, esposa do Sr. Botha deve viajar até Zimbabwe para buscar o corpo do marido. O Sr. Botha era amigo do caçador Scott Van Zyl, de 44 anos, que foi morto por crocodilos em Zimbabwe no mês passado.
Um porta-voz da Zimbabwe Parks & Wildlife Authority disse que o incidente aconteceu na Good Luck Farm, nas proximidades do Hwange National Park.
Esta é a íntegra de uma notícia publicada pelo Yahoo Notícias (https://br.yahoo.com/noticias/cacador-e-esmagado-ate-morte-por-queda-de-elefante-abatido-080954865.html) em 23 de maio de 2017.
"Tragédia em caçada: Caçador morre esmagado no Zimbábue"! Será este o melhor título para a notícia apresentada acima? No meu entender, não. Que título eu lhe daria? "Justiça em caçada: Caçador morre esmagado no Zimbábue"! E para justificar tal título, recorro à seguinte passagem da Doutrina Secreta.
"O Karma não cria nem planeja nada. É o homem quem planeja e cria causas, e a Lei Cármica ajusta o efeito. Tal ajustamento não é um ato, mas a harmonia universal, que tende sempre a reassumir sua posição original, tal qual um galho de árvore que, puxado violentamente para baixo, retorna com igual violência. Se o braço que o puxou se deslocar ou quebrar, quem teria sido o causador do sofrimento? O galho ou a nossa insensatez?"
Se "o grande caçador que buscava americanos ricos e interessados em participar de expedições e obter troféus de caça", foi esmagado até a morte por um elefante que, após ser baleado por um membro do grupo de caça por ele comandado, sobre ele desabou, "quem teria sido o causador do sofrimento"? O elefante ou a insensatez do caçador esmagado? Qual a melhor classificação para o ocorrido? Uma tragédia ou um raro caso de aplicação imediata de justiça? O que vocês acham?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Empresas trocam avaliação convencional por conversa

Notas e formulários são aposentados para reduzir burocracia e aumentar engajamento dos funcionários
A efetividade do modelo tradicional de avaliação de desempenho – com formulários, notas e balanços anuais – vem sendo questionada por todos: especialistas, empresas e funcionários.
"De que adianta existir uma ferramenta se ela não é valorizada pelos gestores?", afirma Bruno Andrade, líder da área de engajamento da consultoria Aon Brasil. Para ele, os profissionais encaram a avaliação de forma protocolar, porque não acham que o processo leva a algum lugar. Outro motivo de resistência, segundo ele, é a presença das notas, que "rotulam e limitam".
"Sempre me incomodou esse negócio de ter que encaixar as pessoas dentro de blocos. Cada ser humano é tão complexo. Isso não faz o menor sentido", afirma a economista Renata Freezs, 39, gerente de estratégia e mercado da Klabin, fabricante de papel e celulose.
A empresa começou a eliminar o sistema tradicional de avaliação de desempenho no fim de 2015. Hoje, o processo já está consolidado. No lugar de formulários, notas e feedbacks, entraram "conversas de qualidade", nas quais líder e funcionário discutem as oportunidades de crescimento – e não mais as falhas cometidas. Depois da mudança, Freezs passou a fazer reuniões semanais com sua equipe e, a cada três meses, conversas individuais. "É um processo mais maduro e humano. Demanda tempo, mas vejo isso como um investimento", diz.
"O termo feedback se desgastou com o tempo. Passou a ser algo desconfortável para os dois lados", diz Sergio Piza, diretor de gente e gestão da companhia. Ele conta que, no começo, os líderes foram treinados para criar planos de desenvolvimento construtivos, não reativos. "Não vou pensar no defeito da pessoa, mas tentar entender o que ela precisa para entregar mais resultado.". A redução da burocracia, na visão de Piza, traz de volta o que realmente interessa: o desenvolvimento dos profissionais. "A gente ganhou tantas ferramentas que elas acabaram se tornando o fim, não o meio.".
Para a psicóloga Izabela Mioto, professora dos cursos de pós-graduação de administração da FAAP, a tendência é que as empresas, aos poucos, comecem a rever seus sistemas de avaliação. "Mas não adianta buscar uma roupagem moderna se não houver formação de líderes com esse entendimento. O processo vai levar para o mesmo lugar", afirma.
SEM NOVIDADE
Nem todo mundo concorda que a falta de eficácia dos sistemas de avaliação está na ferramenta em si. "Não há nada de novo em promover conversas, sem um balanço anual. Já fazíamos isso na década de 1980", diz a psicóloga Leni Hidalgo, professora de gestão de pessoas do Insper. Segundo a especialista, se os chefes só dão feedbacks aos funcionários uma vez ao ano, esse é um problema de gestão, não do instrumento. "Eliminar a burocracia pela burocracia é importante, mas não podemos jogar o bebê junto com a água da bacia. Temos que eliminar só o que é ruim", afirma.
A administradora Carolina Souza, 34, trabalha na fábrica de bebidas Diageo há quatro anos. "A empresa leva muito a sério a avaliação, e esse é um fator de retenção para mim", conta a gerente sênior de marketing. Para Souza, as janelas formais garantem a transparência do processo, já que, de uma forma ou de outra, os profissionais serão analisados – o que pode influenciar nas promoções. "Aqui, me sinto muito segura porque sei o que esperam de mim e vejo que o método é justo".
Estes são alguns trechos de uma reportagem de Carolina Muniz, publicada na edição de 9 de abril de 2017 do jornal Folha de S.Paulo.
"A pessoa sai do teatro corporativo, mas o teatro corporativo não sai da pessoa.". Aposentado há seis anos e meio, após 3,7 décadas de atuação no referido teatro, reportagens sobre ele ainda mexem comigo. Até porque, em termos de ambiente de trabalho e de relações interpessoais, parece que nele nada muda para melhor. Li a reportagem acima e lembrei muito do que nele passei. É impressionante!
Empresas trocam avaliação convencional por conversa, eis o título da reportagem. E, pelo que entendi ao lê-la, avaliação convencional significa avaliação realizada usando uma ferramenta. Ou seja, segundo a reportagem, o que as empresas estão fazendo é abandonar as ferramentas. Será que dá para acreditar nisso? Sei não! Por que digo isso? Porque, em termos de avaliação, o que sempre vivenciei no teatro corporativo foi o desconforto dos chefes em sentar diante de cada subordinado e, olhos nos olhos, dizer-lhe porque receberia ou não uma promoção ou um aumento de salário.
Não, as avaliações de subordinados não passaram a ser algo desconfortável com o passar do tempo, como diz Sergio Piza, diretor de gente e gestão da Klabin; elas sempre foram desconfortáveis. Na empresa onde trabalhei durante 3,6 décadas, segundo as normas do RH, os chefes deveriam comunicar a cada um de seus subordinados não só o resultado de sua avaliação, mas também o porquê do resultado. E caso tivesse sido insatisfatório, um plano de ação para melhorar o rendimento do avaliado deveria ser implementado. Durante toda a minha vida profissional jamais vi colocadas em prática tais normas do RH.
E motivados pelo desconforto causado pela comunicação da avaliação face a face com cada subordinado, de bom grado, os chefes aderiram à prática de comunicá-la usando alguma ferramenta, ou seja, interpondo uma interface entre eles e os subordinados.
"Nem todo mundo concorda que a falta de eficácia dos sistemas de avaliação está na ferramenta em si. (...) Segundo a psicóloga Leni Hidalgo, professora de gestão de pessoas do Insper, se os chefes só dão feedbacks aos funcionários uma vez ao ano, esse é um problema de gestão, não do instrumento."
Concordo plenamente que "esse é um problema de gestão, não do instrumento.". Até porque, no meu entender, a própria (ou seria imprópria?) decisão de transferir para um instrumento a responsabilidade por uma tarefa que compete aos chefes, independentemente da periodicidade com que se dão feedbacks aos funcionários, por si só, já evidencia a existência de um problema de gestão.
Há muitos anos, em um daqueles cadernos contendo reportagens sobre administração que faziam parte das edições dominicais dos jornais, li uma frase que jamais esqueci: "Em uma empresa, todos os problemas são humanos, e todos os humanos são problemas.". Ou seja, se, verdadeiramente, desejarmos solucionar os problemas existentes em uma empresa, creio que o único caminho que nos levará a ter êxito em tal intento seja parar de culpar as ferramentas pela existência dos problemas e aceitar que a responsabilidade de resolvê-los compete aos humanos que nela atuam. Vocês concordam com essa afirmação?

sábado, 22 de abril de 2017

'Vício' em Uber causa até cartão cancelado

Passageiros trocam transporte público e caminhada por aplicativos de carro e acabam gastando até R$ 900 mensais
Os R$ 8 parecem pouca coisa, os próximos R$ 15 também e por que não uma corrida de R$ 20? É só dessa vez, tá barato. Com essa mentalidade, usuários se "viciaram" em recorrer a aplicativos de transporte todos os dias como se não houvesse fatura amanhã. No entanto, ela chega, e revelando somas inimagináveis. A preguiça, os preços baixos e o tempo economizado fizeram com que usuários criassem uma dependência de aplicativos de transporte como Uber, 99, Easy e Cabify. Quem pegava metrô e ônibus ou ia a pé para os lugares passou a recorrer a motoristas, desembolsando um valor mensal que antes não estava contabilizado no planejamento financeiro.
(...) "Já cheguei a gastar R$ 200, R$ 300", afirma a estudante Anna Carolina Xandó, 21, cuja fatura do cartão se divide entre Uber, Uber, Uber e comida, comida, comida, e mais Uber, Uber...
(...) Já os gastos da estudante Carolina Arno, 20, são maiores. Ela diz desembolsar R$ 900 por mês com Uber. Segundo ela, mesmo assim fica mais barato do que usar o carro para ir a baladas e se deslocar de casa, no Itaim Bibi, para a faculdade, na Vila Mariana (zona sul) – só o estacionamento custa R$ 350 mensais.
(...) O consultor em engenharia de tráfego Sérgio Ejzenberg alerta, no entanto: a exacerbação do uso do automóvel é nociva para a sociedade. "Gera mais poluição e congestionamento. Para as viagens usuais, de casa para o trabalho, por exemplo, o transporte público, o mais seguro e barato que existe, deve ser priorizado pelo usuário", diz.
Por causa de gastos mais exorbitantes com esses aplicativos, tem até quem tenha se submetido a um "detox" deles para colocar a fatura do cartão de crédito nos eixos.
"Lembrei que existia o conhecido ônibus", brinca a vendedora Virgínia Cardoso, 18, moradora de Fortaleza (CE). "Antes gastava R$ 250 por mês. Agora não chega a R$ 100. Sou mais controlada no vício." Para tanto, recorreu a uma técnica comum para administrar as contas: passou a pagar com dinheiro.
(...) Para o professor de finanças do Insper Michael Viriato, "parece quase indolor" o gasto de dinheiro nesses aplicativos porque não se vê o dinheiro na hora da compra, nem é necessário passar o cartão. "A mesma pessoa que se descontrola no cartão de crédito em compras normais é quem pode se descontrolar na compra desse serviço."
Foi o que aconteceu com a fotógrafa Lua Morales, 24. "Eu pensava: nossa, que preguiça de ir para a padaria. Vou de Uber", diz. "Pior que eu era extremamente controlada com cartão de crédito. Foi o Uber que me causou isso. Eram viagens pequenas e teoricamente baratas. Mas se somar no fim do mês... De R$ 8 em R$ 8 vira R$ 1.000", diz. Lua gastou R$ 800 num mês com o Uber, ficou devendo, e teve o cartão cancelado.
Estes são alguns trechos de uma reportagem de Juliana Gragnani, publicada na edição de 3 de abril de 2017 do jornal Folha de S.Paulo.
"'Lembrei que existia o conhecido ônibus', brinca a vendedora Virgínia Cardoso, 18, moradora de Fortaleza (CE). 'Antes gastava R$ 250 por mês. Agora não chega a R$ 100. Sou mais controlada no vício'. Para tanto, recorreu a uma técnica comum para administrar as contas: passou a pagar com dinheiro."
Colocando em prática o método das recordações sucessivas, a lembrança da vendedora levou-me a lembrar de duas passagens que reproduzo a seguir. A primeira, extraída de uma entrevista com o filósofo australiano John Armstrong publicada na extinta revista Lola, em uma data que não sei lhes dizer qual seja, pois as páginas da revista não a estampam em seu rodapé.
Lola: Hoje, a maioria das transações é virtual. Isso muda a noção das pessoas em relação ao dinheiro e a maneira com que lidam com ele?
John Armstrong: Sim. Quando temos de pagar em dinheiro – em notas reais -, ficamos muito mais conscientes do que estamos gastando. Transações virtuais diminuem a dor dos gastos, o que provavelmente é uma coisa ruim, embora seja totalmente compreensível que queiramos diminuir essa dor. A dor é, biologicamente falando, um sinal de alerta sobre o perigo. Então, se você elimina a dor, você elimina o sinal de alerta.
A segunda, extraída de uma reportagem intitulada Pagar restaurante com dinheiro pode já não ser mais uma opção, publicada na edição de 31 de julho de 2016 do jornal Folha de S.Paulo, com a indicação de ter sido publicada no The New York Times.
"Cartões e aplicativos de pagamento também são sujeitos a falhas de segurança, o que pode expor dados de clientes. Outra vantagem da cédula é que, de acordo com estudos, pagar em dinheiro ajuda o consumidor a gastar menos, ao dar mais valor ao que compra."
"Uma rede de restaurantes 'deixa de aceitar dinheiro vivo para pagar a conta' e, segundo um de seus fundadores, "quase ninguém reclamou nas redes sociais", diz a reportagem."
Considero sinistra a inconsciência com que a maioria da dita espécie inteligente do universo (sem qualquer reflexão quanto a possíveis efeitos nocivos) adere a toda e qualquer novidade que lhe sendo vendida como uma facilidade, a médio e longo prazo, lhe trará males dos quais ela terá imensas dificuldades para se livrar. Ou seja, como diz aquela belíssima canção da Legião Urbana: "Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação".

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Smartphone não entra

A dependência do uso de celulares faz com que empresas proíbam o acesso de aparelhos à sala de reuniões para tornar os encontros mais rápidos e produtivos
Após a gafe histórica durante a cerimônia do Oscar deste ano, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou na quinta-feira que celulares não serão mais permitidos nos bastidores da premiação. Para quem não lembra, um auditor usava seu smartphone para postar em uma rede social, distraiu-se e entregou o envelope errado ao apresentador. O desfecho é conhecido: o prêmio foi anunciado para "La la land", enquanto o verdadeiro vencedor era "Moonlight: Sob a luz do luar".
No mundo corporativo, distrações geradas pelo uso excessivo da tecnologia não têm a mesma repercussão de um "mico" mundial. Causam, no entanto, grandes impactos na condução dos negócios. Não à toa, algumas empresas estão proibindo o uso dos smartphones durante reuniões para tornar os encontros mais rápidos e produtivos. A caixa de acrílico na entrada da sala de reuniões na agência VZA Expomídia deixa claro: "celulares não são permitidos aqui". A ideia foi de Leo Martinez, um dos sócios e diretor de criação, que começou a se incomodar com a dependência da tecnologia e se interessou em estudar para verificar como estes estímulos eram prejudiciais às vidas pessoal e profissional.
Na procura, ele encontrou resultados alarmantes. Pesquisas feitas em Harvard e no MIT (Massachusetts Institute of Technology) mostram que um americano checa seu celular a cada seis minutos e meio. Além disso, a presença de um telefone na mesa (mesmo que esteja desligado) muda o que as pessoas falam. A expectativa por uma notificação de um aplicativo faz com que o assunto não fique profundo, e apenas permaneça na camada superficial. Neurocientistas também concluíram que a culpa por esta ansiedade é hormonal: a dopamina, hormônio da gratificação, gera uma sensação de prazer depois que damos aquela olhadinha rápida no smartphone. E o cérebro "dá like" a cada notificação recebida.
- Comecei a analisar as reuniões das quais participava e vi que a atenção não estava ali. Eu mesmo saía para atender o celular. Somos uma agência de soluções, vendemos conceitos, coisas abstratas, e precisamos que o time esteja 100% focado. Sem o celular, a reunião fica mais produtiva e dura menos tempo – defende Leo Martinez, que criou a caixa de acrílico citada no segundo parágrafo acima.
Na Rádio Ibiza, há uma regra tácita de que os aparelhos não são bem-vindos nos encontros de equipe. (...) É importante que todos estejam presentes de corpo e alma para que as reuniões sejam proativas e produtivas – confirma Lauro Almeida, gerente de criação da empresa.
E se você acha que o assunto é balela, e está lendo esta matéria e olhando o celular ao mesmo tempo, um alerta: ser "multitarefa" e "conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo" é algo impossível para o cérebro, diz Ana Souza, especialista em neurociência comportamental e co-CEO da Forebrain.
- O processo de atenção é como se fosse uma lanterna: botamos foco no que é relevante. Ninguém é bom em fazer várias atividades ao mesmo tempo. Numa reunião, usando o celular, o entendimento é menor e a participação fica precária. Cada vez que o participante abre um aplicativo e volta a prestar atenção, demora a se engajar novamente no assunto. E o deslocamento da atenção causa perda da produtividade – afirma ela.
(...) Para a psicóloga, neuropsicóloga e fundadora da escola "Os Batutinhas", Ana Luiza Badaró, as pessoas vivem numa ansiedade e velocidade em que não se permitem um momento sequer de vazio. (...) Esta ansiedade de ter as respostas na hora por causa do celular na mão gera ansiedade e faz com que a gente perca o tempo de reflexão – diz ela.
Estes são alguns trechos de uma reportagem de Ana Carolina Diniz, publicada na edição de 2 de abril de 2017 do jornal O Globo.
"Ser 'multitarefa' e 'conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo' é algo impossível para o cérebro.", diz Ana Souza, especialista em neurociência comportamental e co-CEO da Forebrain. "O processo de atenção é como se fosse uma lanterna: botamos foco no que é relevante. Ninguém é bom em fazer várias atividades ao mesmo tempo.", acrescenta ela.
Inicialmente, Ana Souza diz que "Ser 'multitarefa' e 'conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo' é algo impossível para o cérebro". Posteriormente, diz que "Ninguém é bom em fazer várias atividades ao mesmo tempo". Fico com a segunda afirmação, pois, da primeira, eu discordo. Afinal, o que mais se vê, durante o tempo todo, são pessoas fazendo duas coisas ao mesmo tempo. E uma vez que alguém tenha conseguido fazer determinada coisa, creio que considerar impossível fazê-la deixa de fazer sentido. No meu entender, o que deve ser considerado impossível – ainda segundo o que se vê durante o tempo todo - é fazer alguma coisa "bem feita" sem dedicar-se exclusivamente a uma coisa.
Ainda sobre o assunto 'multitarefa', compartilho com vocês algo interessantíssimo que li no livro Sociedade do cansaço (2015, Editora Vozes) de autoria de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha onde é professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim e autor de uma dezena de artigos sobre a sociedade e o ser humano.
"A técnica temporal e de atenção multitasking (multitarefa) não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se antes de um retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção indispensável para sobreviver na vida selvagem.
Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua a comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo também com outras atividades. Deve cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido. Ao mesmo tempo tem de vigiar sua prole e manter o olho em seu (sua) parceiro (a). Na vida selvagem, o animal está obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades. Por isso, não é capaz de aprofundamento contemplativo – nem no comer nem no copular. O animal não pode mergulhar contemplativamente no que tem diante de si. Não apenas a multitarefa, mas também atividades como jogos de computador geram uma atenção ampla, mas rasa, que se assemelha à atenção de um animal selvagem. As mais recentes evoluções sociais e a mudança de estrutura de atenção aproximam cada vez mais a sociedade humana da vida selvagem."
Smartphone não entra, eis o título desta reportagem em que é dito já haver empresas cujos donos conseguiram deixar entrar em sua cabeça o entendimento que "ser 'multitarefa' e 'conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo'" é algo contraproducente. Sociedade do cansaço, eis o título de um livro em que é dito que, ao contrário da suposição de ser algum progresso civilizatório, a 'multitarefa' é um retrocesso, pois, "trata-se uma técnica de atenção indispensável para sobreviver na vida selvagem".
A reportagem e o livro citados no parágrafo anterior são apenas dois exemplos de reportagens e livros onde vi evidenciada a nocividade da 'multitarefa'. Sendo assim, a esperança é que, com o transcorrer do tempo, mais e mais pessoas consigam enxergar tal nocividade e que algum dia a dita espécie inteligente do universo consiga, finalmente, atingir um estágio evolutivo no qual (por mais absurdo que – hoje – isso possa parecer) a prática da 'multitarefa' tenha sido erradicada. Afinal, como diz Byung-Chul Han, 'multitarefa' é uma técnica de atenção indispensável para sobreviver na vida selvagem.