terça-feira, 22 de março de 2011

Virada reúne 4 milhões e tem um morto

“Jovem de 17 anos leva facada na av. São João e morre em hospital; festa agregou cerca de mil atrações ao longo de 24 horas

Só por um dia

O secretário da Cultura, Carlos Augusto Calil reiterou que a Virada ganhou importância como ferramenta para a revitalização da região central. ‘São Paulo não pode prescindir de seu centro, por todos os valores simbólicos que a região tem’.

A fala do secretário, no entanto, destoa do dia a dia da cidade. A praça Júlio Prestes, área conhecida pela sujeira, insegurança e concentração de usuários de drogas, foi maquiada para ser palco do primeiro show da Virada: estava limpa e muito policiada.”

Estes são alguns trechos de uma reportagem de Fernanda Mena Gustavo Fioratti, publicada na edição de 17 de maio de 2010 do jornal Folha de São Paulo.

Quem prestou atenção à data de publicação da reportagem pode estar se perguntando: “O que leva o Guedes a querer opinar sobre uma notícia antiga?” O fato de ela evidenciar algo que nunca deixou de ser atual: a mentalidade só por um dia. Na época da publicação ainda não existia este blog, mas a notícia mexeu comigo e ficou esperando por um momento propício para ser comentada. E o momento chegou, trazido por um presidente. A visita de Barack Obama me fez lembrar da mentalidade só por um dia.

Indagada sobre o que achava da visita de Obama à Cidade de Deus, uma moradora respondeu algo mais ou menos assim: Ele precisa vir aqui todos os dias, pois de nada adianta vir aqui só um dia. Fizeram uma maquiagem para recebê-lo e depois tudo voltará ao normal. Ufa! Um pouco de lucidez em meio a tanta alienação e deslumbramento!

Fizeram uma maquiagem, disse a moradora. Mais uma semelhança entre a visita de Obama e a reportagem sobre a Virada: (...) foi maquiada para ser palco do primeiro show da Virada: estava limpa e muito policiada. Por que são feitas tais maquiagens? Para disfarçar a realidade e enganar a quem olha. E nesta sociedade na qual enganar e aceitar ser enganado é tão bem aceito pela maioria, poucas pessoas têm a lucidez daquela moradora da Cidade de Deus.

Esta reportagem dá o que pensar e propicia várias ilações, e talvez por isto eu a tenha guardado. E as coincidências continuam! Um comentário sobre a Virada publicado na mesma edição que traz a reportagem demonstra ter afinidade com as últimas postagens do Espalhando ideias. Tem tudo a ver com a Sede de Sentido. Vejam o que diz Mário Bortolotto:

“(...) não consigo me divertir onde muitas pessoas buscam desesperadamente fazer o mesmo. E é justamente esse ‘desespero’ que me incomoda. A diversão não me incomoda, muito pelo contrário. Gosto de me divertir e gosto de ver as pessoas se divertindo.

Mas o desespero me incomoda, e a alegria se revela paradoxal, como se fosse necessário assistir a todos os shows, beber todas as cervejas e estar onipresente nos lugares. E, obrigatoriamente, se divertindo muito. Essa é a regra, não é?

Me parece um reflexo do tipo de aflição que nos persegue atualmente. Nossos trabalhos são tão chatos, nossas opções de vida se mostraram tão insatisfatórias e a diversão é tão rara que agora nos sentimos obrigados a usufruir da maneira mais violenta possível nas ocasiões em que ela se manifesta.

Continuo achando que há algo estranho numa sociedade que precisa ‘desesperadamente’ se sentir aliviada e feliz por algumas horas. Não deveria esse ser um direito nosso o ano todo?”

Não, não deveria, pois direitos não são dados e sim conquistados. E para conquistá-los é necessário lutar, mas não apenas por um dia, conforme a opinião de Bertolt Brecht:

“Há homens que lutam um dia. E são bons.
Há homens que lutam muitos dias. E são melhores.
Há os que lutam anos. E são excelentes.
Mas há os que lutam toda a vida.
E estes são os imprescindíveis.”

Bertolt Brecht foi um destacado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX. Nossa! Realmente tudo está ligado. As atividades de Brecht me fizeram lembrar que o discurso de Obama acabou acontecendo no Teatro Municipal. Achei perfeito. Afinal, um teatro é o lugar mais adequado para encenações. Mas como quase tudo na vida, o teatro pode ser usado para o bem e para o mal. Brecht o usava para tentar conscientizar as pessoas. Será que Obama o usou com a mesma intenção?

Diante do que foi dito, encerro este texto juntando mentalidade só por um dia e teatro. É a adoção de tal mentalidade que impede o desenvolvimento de um saudável ambiente de trabalho no teatro corporativo. Promover confraternizações só por um dia – no final do ano – jamais originará um ambiente fraterno.

Infelizmente, nesta sociedade, esta mentalidade atua durante todo o tempo e em todos os lugares. Dá para aceitar que a mentalidade só por um dia é incapaz de promover alguma mudança duradoura para melhor? Vocês têm 24 horas para responder esta pergunta, ok? Mudar a sociedade para melhor depende de homens e mulheres imprescindíveis (lembrem de Bertolt Brecht). Portanto, torne-se um(a).

2 comentários:

Michelito disse...

A maioria das pessoas aceitam suas condições de vida e colocam a culpa na sociedade e nos outros. Conhecemos muitos casos de pessoas que sairam da miséria e hoje tem um papel importante na sociedade e isso aconteceu por que elas lutaram "todos os dias". Quando a sociedade passar a se responsabilizar pelos problemas as coisas começaram a mudar. A nossa responsabilidade começa quando vemos essas situações e pensamos "Ainda bem que não é comigo, ainda bem que eu não moro nesse lugar e etc...". Na verdade nosso pensamento deveria ser "Deus, por favor ajude a essas pessoas a sairem dessas condições, desse lugar e etc...". A política do pão e do circo vem sendo utilizada desde a roma antiga, mas ela só funciona quando a população é analfabeta política. Segue a definição de analfabeto político de Berlot Brechet:
"Analfabeto político
- O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce à prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo. (Bertolt Brecht)".
Para mudar isso precisamos nos tornar pessoas imprescíndiveis e não aceitar a vida como ela é.

Guedes disse...

Michelito,

Sim, na hora de descobrir os culpados a maioria coloca a culpa na sociedade e nos outros. E nesta hora ela – espertamente – se coloca como não pertencente à sociedade. Agindo assim, acredita que pode eximir-se de qualquer ação e ficar apenas na reclamação. Reclamação é uma palavra que já me deu o que pensar. Como diria Joseph Klimber, - numa bela manhã de sol – eu imaginei um novo significado para ela. Por que não entender reclamação como “reclamar ação”? Não apenas por parte de outros, como também de nós. Se a entendêssemos assim mudaríamos a sociedade para melhor.
Sim, há muitos casos de pessoas para as quais reclamação parece ter significado que imaginei, pois “elas lutaram ‘todos os dias’, saíram da miséria e alcançaram um papel importante na sociedade”.
Você diz que: “Quando a sociedade passar a se responsabilizar pelos problemas as coisas começarão a mudar. A nossa responsabilidade começa quando vemos essas situações e pensamos ‘Ainda bem que não é comigo, ainda bem que eu não moro nesse lugar e etc...’”.
Concordo plenamente, pois é exatamente como me defino no perfil no blog. “Alguém que acredita que a qualidade de uma sociedade é resultado das ações de todos os seus componentes”.
Foi muito bem lembrado por você o texto do Analfabeto político, de Bertolt Brecht. O analfabeto político confunde política – arte de bem governar os povos – com politicagem – política mesquinha, estreita, de interesses pessoais. E ao cometer tal equívoco deixa nas mãos de politiqueiros as decisões que implicam no surgimento do que há de pior na sociedade: a alta do custo de vida, a prostituição, o menor abandonado, a corrupção e a exploração dele próprio. E o imbecil ainda se orgulha de contribuir para isto, pois não enxerga a sua participação. Afinal, ele odeia política. O que não deixa de ser verdade, pois o que ele apóia é a politicagem.
Sim, “para mudar isso precisamos nos tornar pessoas imprescindíveis” como dizia Bertolt Brecht.

Abraços,
Guedes