quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Governo federal já tem 22 mil cargos de confiança

Folha de pagamento da União vai ultrapassar R$ 203 bilhões este ano
“As funções comissionadas, que vêm crescendo desde o segundo ano do governo Lula, chegaram, no ano passado, a 22 mil. É o maior número desde 2002. Em relação a 2010, houve um aumento de 130 cargos. Para o Orçamento deste ano, a estimativa é de que o gasto com a folha de pessoal e encargos sociais ultrapasse os R$ 203 bilhões - o que equivale ao triplo do valor previsto para investimentos em todos os ministérios. De acordo com o governo, hoje mais de 70% dos cargos de confiança são ocupados por servidores públicos de carreira e as nomeações políticas são minoria.
Esta é a manchete da edição de 23 de janeiro de 2012 do jornal O Globo.
Esta é uma daquelas notícias na qual, independentemente de seu conteúdo, a simples leitura de uma expressão contida em seu título desperta minha vontade de falar alguma coisa. Existem expressões que sempre que as ouço ou leio não consigo ficar quieto, e cargo de confiança é uma delas.
Cargo de confiança é algo paradoxal, pois é de confiança para uns e de desconfiança para outros. Para quem designa alguém para exercer um deles, a confiança é de que seu ocupante obedeça, incondicionalmente, a qualquer ordem vinda de quem estiver hierarquicamente acima. Para os subordinados, a partir do momento em que assumir o cargo, as atitudes de seu ocupante passarão a ser tão diferentes do que eram até então que, geralmente, ele passará a não lhes inspirar a menor confiança.
Ocupantes de cargos de confiança costumam seguir fielmente a máxima manda quem pode e obedece quem tem juízo. E, consequentemente, perseguir cruelmente quem for avesso a obedecer cegamente às ordens por eles repassadas. Sim, repassadas, pois há sempre um cargo de confiança acima que repassa ordens para o imediatamente abaixo e assim por diante.
Portanto, o que é de confiança não é o cargo, e sim o seu ocupante. E isso do ponto de vista de quem nele o colocou, pois do ponto de vista dos subordinados, geralmente, nem o cargo nem seu ocupante costumam inspirar a menor confiança.
O que foi dito acima está baseado no que vivenciei durante as 3,7 décadas em que atuei no teatro corporativo, e alguém poderá questionar sua aplicabilidade em outra área, pois a notícia refere-se ao Governo federal. Quanto a esse possível questionamento digo o seguinte: uma enorme quantidade de cargos de confiança da área governamental é ocupada por pessoas com passagem pelo mundo corporativo. E a postagem anterior também contém uma afirmação que apóia a aplicação na área governamental do que vivenciei no teatro corporativo. Segundo um lúcido ativista do movimento "Ocupe", "Corporações e governo estão tão inextrincavelmente ligados que não é mais uma verdadeira democracia, e as pessoas precisam perceber isso".
E ao perceber isso, as pessoas perceberão também que as práticas corporativas e governamentais não apresentam diferenças. Portanto, se a cada dia o governo federal possui mais cargos de confiança, creio que a cada dia os governados têm mais motivos para ter menos confiança no que estiver a cargo do governo.




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