sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

'As pessoas de onde eu venho não têm voz e nem vez', diz Richarlison

Por que é raro encontrar um atleta brasileiro engajado nas lutas sociais e políticas? Com esta questão na cabeça, fomos ouvir Richarlison, jogador do time inglês Everton e da seleção brasileira. Aqui o importante relato que merece uma reflexão:
"Ultimamente, em toda entrevista que eu dou, uma pergunta é certa: 'Por que você se posiciona?'. Mas talvez o melhor fosse 'Por quem você se posiciona?'. É muito importante que isso fique claro.
As pessoas de onde eu venho não têm voz e nem vez. Poucos, até hoje, procuraram saber o que é importante ou o que falta para que elas vivam melhor. No Brasil é assim, muitos só recebem atenção em época de eleição.
Falando nisso, vocês sabem, eu nunca tive um partido político. Para ser sincero, nem me interesso, porque não preciso de um para saber que é errado faltar energia elétrica por 22 dias em um estado inteiro. Ou ainda que é um direito básico ter comida na mesa, saúde, educação e moradia.
Também nunca entrei num laboratório. Ainda assim, eu posso dizer a todos que a ciência é a nossa única saída em todos os momentos. Eu vejo isso no meu dia a dia como jogador. Meu corpo precisa da ciência e da medicina para que eu possa fazer o que mais amo.
Bom, eu sequer terminei meus estudos. Mas não é necessário um diploma para enxergar que muita gente é intimidada, encurralada e morta pelo racismo todos os dias no Brasil. Li numa matéria que 75% da população pobre é preta, e que 76% das pessoas mortas todos os anos também são pretas. Coincidência? Não precisa ser o rei da matemática para concluir o óbvio.
É por isso que todos os dias agradeço a Deus pela oportunidade e por não ter virado estatística. O futebol me salvou! É por isso que eu falo, me posiciono e mostro a minha indignação: pelo mínimo de dignidade e igualdade para todos os brasileiros que não tiveram a mesma sorte que eu.
Espero ter respondido à questão".
Esta é a íntegra de uma reportagem - entrevista assinada por Nelson Lima Neto publicada em 07 de dezembro de 2020 no endereço https://blogs.oglobo.globo.com/ancelmo/post/pessoas-de-onde-eu-venho-nao-tem-voz-e-nem-vez-diz-richarlison.html?utm_soure=globo.com&utm_medium=oglobo.
"Eu sequer terminei meus estudos. Mas não é necessário um diploma para enxergar que muita gente é intimidada, encurralada e morta pelo racismo todos os dias no Brasil. Li numa matéria que 75% da população pobre é preta, e que 76% das pessoas mortas todos os anos também são pretas. Coincidência? Não precisa ser o rei da matemática para concluir o óbvio.", diz Richarlison, 23 anos, jogador de futebol, em reportagem publicada em 07 de dezembro.
Ou seja, um lúcido jogador de futebol, com 23 anos de idade, que revela sequer ter terminado seus estudos e que revela também não ser necessário nenhum diploma para enxergar o que acontece no mundo em que se vive.
"Nunca pensei que existissem pessoas morando em lixão. Há três semanas, visitamos alguns lixões. E o que a gente viu é algo que eu nunca tinha pensado que existisse. Pessoas morando nos lixões e vivendo no chorume.", disse Pedro Guimarães, 49 anos, presidente da Caixa Econômica Federal, no Palácio do Planalto, em cerimônia do Dia do Voluntário e Pessoa com Deficiência, realizada no dia 03 de dezembro e noticiada no mesmo dia em https://epoca.globo.com/guilherme-amado/980080-nunca-pensei-que-existissem-pessoas-morando-em-lixao-diz-presidente-da-caixa-veja-video-24779937.
Um economista com 49 anos de idade que revela jamais ter pensado que existissem pessoas morando em lixão. Um economista indicado para a presidência da Caixa Econômica Federal pelo Ministro da Economia. Um Ministro da Economia que (durante uma reunião ministerial secreta que por motivos judiciais acabou tornada pública) revela que desconhecia a existência de 38 milhões de brasileiros por quem o governo jamais fez alguma coisa e que ele passou a chamar de "invisíveis". Um ministro da economia nomeado por um presidente que afirma que "Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira.".
Ou seja, alguns ignorantes (indivíduos que ignoram), com duas ou três vezes a idade do jogador de futebol, que demonstram não ser necessário nenhum conhecimento sobre o que acontece no mundo em que se vive para tornar-se ocupante de cargos em um governo (sic).
"Ultimamente, em toda entrevista que eu dou, uma pergunta é certa: 'Por que você se posiciona?'. Mas talvez o melhor fosse 'Por quem você se posiciona?'. É muito importante que isso fique claro.", diz o jovem e lúcido jogador de futebol.
Há algum tempo, em tudo que ouço ou leio sobre falas de governantes (sic), um questionamento é certo: 'Por quem eles governam?'. É muito importante que isso fique claro, digo eu.

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